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29 04 08
Calando a Bombonera

Cruzeiro 2 x 1Boca Jrs    6/4/94

Calando a Bombonera

 

            Durante a campanha da Copa Libertadores de 1994, o Cruzeiro teria que enfrentar a torcida mais temida do hemisfério Sul. O duelo seria contra o Boca Junior, no estádio de La Bombonera! Vários times brasileiros, durante anos, haviam sofrido derrotas vexatórias nesse templo do futebol mundial, um estádio em que as arquibancadas são praticamente na horizontal, dando a impressão aos atletas de que a torcida adversária está literalmente em cima deles, fazendo pressão durante o jogo todo. O estádio é chamado pelos argentinos de La Bombonera por se assemelhar a uma caixa de bombons, sendo que o campo de jogo é separado das arquibancadas por uma grade em que os torcedores boquenses sobem para comemorar os gols do seu time, o que gera a impressão de que vão invadir o campo e, literalmente, linchar os adversários.

            O time do Cruzeiro, no começo da década de 90, vinha participando de vários torneios internacionais e estava acostumado à pressão adversária nos estádios sul-americanos. Além disso, tinha no seu ataque o menino Ronaldinho, que, com apenas 16 anos, já encantava a todos com seus gols. Mais tarde, depois de conquistar o mundo, ele ficaria conhecido como Ronaldo Fenômeno. Esse time do Cruzeiro não seria vencido no grito, e nem intimidado por ameaças fora do campo; afinal, era, como os sul-americanos apelidaram, um time copeiro.

            Na entrada do estádio, a torcida do Boca cantava sem parar nem para pegar fôlego. Era um espetáculo à parte ver que cada passo da história do clube e que cada jogador tinha sua própria música, entoada a plenos pulmões pelos fanáticos torcedores. A vaia com que o time mineiro foi recebido era ensurdecedora, mas os jogadores não se abalaram. Quando o árbitro apitou o início do jogo, os argentinos partiram para cima, empurrados pela sua torcida. Foram 20 minutos iniciais de pressão total, mas, para azar dos argentinos, eles havia no gol cruzeirense um deus de ébano, chamado Dida, que defendia até pensamento.

            A defesa cruzeirense falhava muito, mostrando-se nervosa no início. Carranza não aproveitou a falha de Ademir e chutou para fora; mais alguns minutos e Martinez chutou para cima outra boa chance. Os argentinos não deixavam o Cruzeiro respirar e o gol parecia questão de tempo. Em um cruzamento, Mancuso ficou cara a cara com Dida, que milagrosamente defendeu um chute a queima-roupa. Logo depois o arqueiro cruzeirense fez outra bela defesa em chute de Da Silva pela esquerda! O Boca não dava espaços e, em uma bobeira, o lateral Paulo Roberto facilitou para o ataque, Martinez aproveitou bem e bateu. Dida mais uma vez evitou o gol, defendendo com o pé direito, e no rebote Carranza tocou por cima do gol! Os cantos da torcida do Boca só aumentavam, com vários torcedores pulando sem parar enquanto cantavam.

            Finalmente o Cruzeiro conseguiu sair para o ataque, aliviando para a defesa. Macalé avançou bem pela lateral e cruzou para Ronaldo, que perdeu o gol; no lance, Macalé sentiu uma contusão muscular e pediu a substituição. Em um contra-ataque, Ronaldo arrancou driblando vários adversários, e quando ia marcar, foi claramente derrubado dentro da área, em um pênalti evidente, que só o árbitro da partida não viu. O Cruzeiro se animou com o lance e começou a tomar as rédeas da partida, e até o final do primeiro tempo o Boca não levou mais perigo ao gol de Dida.

            Na volta para a segunda etapa, a torcida da Argentina começou a demonstrar preocupação, já que o gol não saía e o Boca precisava da vitória de todo jeito, mas Dida, mais uma vez, estava em noite inspirada. O Cruzeiro voltou atacando mais e levando perigo com as arrancadas do menino Ronaldo, que a cada vez que recebia a bola levava terror aos zagueiros argentinos, que precisavam apelar para a violência, na inútil tentativa de detê-lo. Em um desses lances, aos 14 minutos do segundo tempo, Ronaldo foi derrubado perto da área; Paulo Roberto ajeitou a bola e bateu na gaveta de Navarro Montoya, que saltou inutilmente. Gol do Cruzeiro calando os cantos do estádio!

            A torcida ainda tentou apoiar e, logo na saída de bola, o Boca quase empatou, mas Dida estava lá, mais uma vez. Desesperados, os jogadores argentinos partiram com tudo para o ataque, deixando a defesa desguarnecida para os contra-ataques. Num destes, o Cruzeiro ampliou, Luiz Fernando recebeu na entrada da área, fez o passe para Roberto Gaúcho penetrar e tocar no canto esquerdo de Navarro Montoya! Aos 28 minutos, o Cruzeiro vencia por 2 a 0, e agora, ao contrário do inÍcio da partida, o silêncio na Bombonera era impressionante.

            A vitória era certa e o Boca ameaçava apenas com cruzamentos na área, que eram bem cortados pelos zagueiros. Apenas no final do jogo, aos 45 minutos, o Boca fez o seu gol de honra. Martinez avançou pela direita e cruzou na área, o grandalhão Acosta subiu com Luizinho e testou para o fundo das redes.

            O Boca ainda tentou empatar, mas não havia mais tempo. O Cruzeiro tinha calado a Bombonera com uma vitória magistral, inscrevendo este jogo para sempre na gloriosa história do clube.

             Escalação:

Cruzeiro: Dida, Paulo Roberto, Célio Lúcio, Luizinho, Nonato, Douglas, Ademir, Macalé, Cleison, Luiz Fernando, Ronaldo, Roberto Gaúcho

 

Boca Jr.: Navarro Montoya, Sonora, Noriega, Giustini, Mac Allister, Peralta, Mancuso, Marcico, Carranza, Acosta, Martinez, Da Silva (Tapia)

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