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24 03 08
Passando um Centenário a Limpo

Cruzeiro 1 x 0 Atlético-MG

Um Centenário é um Centenário. Cem anos são Cem anos. Um Século é um Século. Passar a limpo uma história de cem anos não é fácil e muita coisa vira pó, cai no esquecimento é subtraída da história. Para  ajudar nossos adversários locais a não se esquecerem de nenhum detalhe, de nenhuma passagem, estamos aqui para ajudá-los a passar  a limpo esta história. Como somos protagonistas principais para eles (ou alguém já viu eles se preocuparem com algum outro time no mundo?), estamos aqui parabenizando-os e ajudando a construir a história real de um centenário.


Pasmem, no primeiro clássico do Mineirão, o rival fugiu.


Na década de 60, o futebol mineiro mudaria: num gesto de ousadia, o governo do Estado construíra o que, na época, seria o segundo maior estádio coberto do mundo, o Gigante da Pampulha, Estádio Governardor Magalhães Pinto ou, simplesmente, Mineirão.


Parecia um capricho dos deuses do futebol, já que aquele grande palco do esporte ficara pronto bem a tempo de ver a formação dos artistas da primeira academia celeste, o maior time de futebol que Minas Gerais veria jogar: o grande Cruzeiro da década de 60.


Na cidade, a torcida cruzeirense ainda era pequena, e tinha que engolir a maioria esmagadora de atleticanos. Mas em campo esta superioridade estava mudando. Um grupo de meninos pincelados de vários lugares pelo presidente Felício Brandi vinha demonstrando que, no Barro Preto, um grande time vinha se formando. Aquele clube de imigrantes italianos que, na época da Segunda Guerra Mundial, fora perseguido e obrigado a mudar de nome, estava se tornando uma verdadeira máquina de jogar futebol, um time que faria as crianças da cidade se recusarem a torcer pelo Atlético-MG, pois queriam ser felizes e comemorar as vitórias daqueles garotos; um time que faria aqueles italianos esquecerem o esquadrão palestrino do final da década de 20.


A expectativa em Belo Horizonte era muito grande para o primeiro clássico entre Cruzeiro e Atlético-MG, no Mineirão. Esta seria a real inauguração do estádio: os times rivais se enfrentariam pela primeira vez, numa partida que marcaria a história do futebol mineiro. A maioria atleticana, mesmo cega em relação à superioridade técnica celeste, acreditava que escreveria na história do estádio as páginas da primeira vitória em um clássico; mal sabia ela que sua vitória em um clássico demoraria alguns longos anos.


O Cruzeiro liderava o Campeonato Mineiro, mostrando um futebol vistoso. Seu meio-de-campo era comandado por dois gênios, Tostão e Dirceu Lopes, e, na ponta-esquerda, o habilidoso Hílton Oliveira vinha infernizando as defesas adversárias. As mais de 60 mil pessoas que foram ver o clássico viram o jogo começar como esperaria qualquer pessoa que entendesse de futebol: com o domínio do melhor time, ou seja, o domínio cruzeirense.


Com Ílton Chaves jogando plantado, lançando seu xará Hílton Oliveira na ponta-esquerda aos 7 minutos do primeiro tempo, o time começava a mostrar suas armas. Hílton Oliveira driblou vários atacantes e só parou devido a um pontapé desleal e desesperado do atleticano Buglê. O ponta celeste demorou quase três minutos para ser atendido em campo.


O jogo estava muito nervoso e, aos 19 minutos, Pedro Paulo e Viladonega se desentenderam e trocaram agressões. Era clara a tentativa dos atleticanos, mais experientes, de usar a artimanha da intimidação contra os garotos cruzeirenses. Mas estes não abaixaram a cabeça e, no campo, a partida quase descambara para a violência.


O Cruzeiro dominou o primeiro tempo e, apesar da violência, tomou conta da partida, muito organizado dentro de campo, com ótima atuação de meio-de-campo formado por Tostão, Hilton Chaves e Dirceu Lopes. O goleiro celeste Tonho era um reles coadjuvante, já que não tivera nenhum trabalho com o ataque rival, que não mostrava nenhuma objetividade. Hilton Oliveira continuava aprontando das suas e, aos 41 minutos, João Batista atingira o ponta sem bola – era o único recurso que faltava à defesa alvinegra.


No segundo tempo, o técnico atleticano, notando que Buião já não conseguia vencer a marcação rígida do lateral celeste Neco, mandou que o Atlético atacasse pelo lado de Noêmio, mas também não conseguiu um bom resultado porque Pedro Paulo anulou completamente as investidas pelo lado direito. Aos 17 minutos, o estádio comemorou um gol que não tinha acontecido: Marco Antônio, em bonita jogada, fintou vários jogadores e atirou forte. A bola, rasteira, ficou presa à rede pelo lado de fora, enganando a torcida celeste, que comemorara o gol.


Aos 25 minutos, Tostão fez tabelinha com Hilton e este cruzou. Wilson, que fechava pela ponta-direita, saltou e chutou de sem-pulo. A bola passou por Perez e foi se chocar contra o poste direito – a pressão celeste era terrível! Foi então que o jovem príncipe Dirceu Lopes carregou a bola na intermediária, levantou a cabeça e lançou em profundidade Hilton Oliveira, que foi à linha de fundo e cruzou para Marco Antônio, que se encontrava fora da área. O atacante dominou e, vendo a movimentação de Tostão, deu o passe. O craque veio na corrida e chutou forte, sem defesa para o goleiro atleticano: acontecia ali o primeiro gol em um Cruzeiro e Atlético no estádio do Mineirão.


Na arquibancada, a alegria era da torcida azul, e o time atleticano se desesperava, afinal, uma semana de preparativos para a vitória no primeiro clássico tinha iludido a todos. As agressões aos jogadores celestes aumentaram, e a torcida celeste não segurava mais os gritos de olés. Foi então que o vexame ocorreu: aos 34 minutos do segundo tempo, surgiu um pênalti de Décio Teixeira em Wilson Almeida. O juiz Juan de La Passion marcou com convicção e foi agredido várias vezes pelos jogadores do Atlético, inclusive pelo técnico Marão. Os policiais entraram em campo e se desentenderam com os “atletas” atleticanos. Alguns diretores do rival invadiram o campo, gritando que a falta tinha sido em cima da linha. Esqueceram-se de um pequeno detalhe: falta sobre a linha da grande área é pênalti! Desesperados e mostrando total covardia, o time atleticano abandonou o campo antes que o Cruzeiro cobrasse o pênalti. Mesmo depois de ser agredido o árbitro ainda esperou 25 minutos em campo, cercado por dirigentes, para que o pênalti pudesse ser cobrado. Como não foi possível fazer isso, ele foi obrigado a encerrar a partida e decretar o Cruzeiro vencedor.


Em 40 anos de estádio, ambos os times venceram vários clássicos, mas apenas uma vez um time fugiu de campo, envergonhando a sua história. O Cruzeiro fez sua parte: ganhou a partida no campo! Ao rival, coube a vergonha da fuga no primeiro clássico do Mineirão.


Escalação:

Cruzeiro: Tonho, Pedro Paulo, Willian, Vavá, Neco, Hilton Chaves, Tostão, Dirceu Lopes, Wilson Almeida, Marco Antônio e Hilton

Atlético: Luis Peres, João Batista, Vander, Bueno, Décio Teixeira, Bougleux, Viladonega, Buião, Toninho, Roberto Mauro, Noêmio

Dedicatória.

Este Jogo Imortal é dedicado a todo torcedor do adversário local, nesta passagem de seu primeiro e único centenário. Queremos tornar esta data inesquecível e motivo para que vocês revivam toda a sua história (e não somente aquela contada pelos estoriadores). Nossos parabéns pelo seu centenário, não seríamos muito do que somos se não fossem vocês e suas histórias.



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