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O maior baile que Pelé levou na vida

Cruzeiro 6 x 2 Santos-SP

30/11/66


Chovia torrencialmente em Belo Horizonte naquela semana. A cidade vivia a emoção da disputa de um campeonato de expressão nacional, pela primeira vez, no Mineirão. O presidente do Cruzeiro, Felício Brandi, tentava não demonstrar, mas estava preocupadíssimo com a possibilidade de aquele time de toque de bola rápido e refinado jogar em um campo muito pesado, o que provavelmente favoreceria o Santos, adversário temido por todos os times do mundo e muito mais experiente do que os meninos do Barro Preto.


O Santos de Pelé era uma máquina de ganhar títulos. Nos cinco anos anteriores, ganhara
as cinco Taças do Brasil, duas Copas Libertadores da América e dois Campeonatos Mundiais Interclubes. Ninguém na imprensa bairrista paulistana conseguia imaginar que um time de garotos, saído de um Estado sem tradição de revelar grandes times podia fazer frente à esquadra comandada pelo "Rei do Futebol". Já em Minas Gerais, a expectativa era bem diferente. Havia mais de um ano e meio que aqueles garotos vinham encantando com apresentações maravilhosas, enchendo a todos de esperanças de trazer para Minas aquele título inédito.


No dia 30 de novembro de 1966 um sol maravilhoso nasceu na Serra do Curral, espantando as nuvens cinzentas que teimavam em escurecer o famoso horizonte mineiro. Para os supersticiosos, até São Pedro queria ver aquele espetáculo sem nada que obstruísse a sua visão. A drenagem do Mineirão era outro orgulho da engenharia de Minas Gerais, pois, na hora do jogo, o gramado do gigante da Pampulha estava em perfeitas condições.


Felício Brandi mostrava por que o Cruzeiro era a Raposa: antes de ir para o estádio, prometera um prêmio recorde pela vitória, além de colocar duzentos ônibus à disposição da torcida cruzeirense. No caminho para o estádio, duas cenas impressionantes: o comércio fechou mais cedo, e mais de 97 mil pessoas pagaram para ver o espetáculo, batendo o recorde de público brasileiro, estabelecido três anos antes
em um Fla x Flu. Todos se perguntavam como aquele time, até então inexpressivo no cenário nacional, podia encher um estádio com torcedores vestidos de azul e branco daquela forma.


O jogo começou e a bola foi lançada na ponta-esquerda do ataque do Cruzeiro. Hilton Oliveira recebeu e driblou o jovem lateral-direito Carlos Alberto, que mais tarde seria capitão da Seleção Brasileira. Na lateral, Hilton levantou a cabeça e cruzou na área; desesperado, o santista Zé Carlos entrou, na tentativa de cortar a bola, e empurrou para dentro, das próprias redes! O Mineirão explodiu,
quase 100 mil pessoas pulando e socando o ar enquanto Zito, capitão da esquadra santista, devolvia a bola para o meio-de-campo.


O Santos tentou cadenciar a partida após o recomeço e recuou a bola para a sua própria intermediária em toques lentos. Como que à espreita da presa, o Cruzeiro adiantou a marcação, sufocando a defesa santista. Nesse momento, um dos muitos lances mágicos da partida: Pelé recuou até o meio-de-campo e pediu a bola, com o braço direito levantado. O "deus de ébano" do futebol recebeu a bola no mesmo instante, sentindo o marcador se aproximar por trás. O Rei gingou o corpo em um drible que, durante sua carreira, deixou 98% dos seus marcadores humilhados. Pelé mal conseguiu ver o vulto azul que passou sem praticamente tocá-lo, levando consigo a bola e puxando o contra-ataque. Sua majestade ficou parada, olhando Piazza se distanciar, sem ao menos tentar acompanhá-lo, tal era a surpresa de encontrar um marcador limpo, que jogava na bola. Piazza deixou o Rei para trás e passou para Dirceu Lopes, um baixinho camisa 10 que tinha as canelas tão finas que os zagueiros salivavam ao vê-las; mal sabiam eles que nunca conseguiriam acertá-las
. Dirceu Lopes dominou a tabela em velocidade com Evaldo, terminando a linha de passe com a bola nos pés de Natal, que, de frente para Gilmar, apenas escolheu o canto para balançar as redes. A torcida, que nem tinha acabado de comemorar o primeiro gol, pulou com entusiasmo. Em apenas 5 minutos, aqueles garotos desmantelaram o maior time do mundo, e o espetáculo estava só começando.

Aos 20 minutos, a defesa santista estava enlouquecida: se tentavam parar Tostão, a bola procurava Dirceu; se corriam atrás de Dirceu, ela teimava em procurar Natal, na ponta; se congestionavam a ponta, Tostão, já livre, pedia a bola. Nas poucas vezes em que o Santos conseguia a posse da bola, lá estava Piazza, parando o ataque mais temido do mundo. Em uma tabela rápida, Dirceu, que a esta altura já era chamado de Príncipe da Bola, recebeu de frente para o gol e, com um drible seco e um chute forte, ampliou! Cruzeiro 3 a 0.

Pouco tempo depois, outro lance histórico: o capitão do esquadrão santista era o Zito, naquela época, já bicampeão do mundo pela Seleção Brasileira, que, como de costume, assumiu a responsabilidade de parar o jovem Dirceu. Num lance espetacular, Dirceu recebeu novamente de frente para o gol e deu dois cortes rápidos e desconcertantes no capitão santista, um para a direita e outro para a esquerda, acertando uma bomba na gaveta do também bicampeão Gilmar que, no pulo desesperado para tentar a defesa, acertou a sua própria trave, caindo dentro do próprio gol.


Cruzeiro 4 a 0, fora o baile!


Nesse momento, já atordoados com aquele esquadrão, o Santos, numaa última tentativa de intimidar a jovem equipe celeste, começou a apelar para a violência. Isso complicou ainda mais sua situação, pois, após
Natal praticar um carnaval na defesa santista, foi derrubado dentro da área – pênalti que Tostão bateu com uma categoria incrível, fechando o placar do primeiro tempo.


Cruzeiro 5 x 0 Santos.  Sobre o imbatível Campeão Mundial Interclubes.


A torcida quase não tinha voz para gritar; os jogadores caminharam para o vestiário sob aplausos ensurdecedores. Na volta para o segundo tempo, logo nos primeiros minutos, mais uma vez o Rei pediu a bola. Quase que automaticamente, Piazza o desarmou, com incrível precisão. Já cansado de não conseguir fugir da marcação implacável de Piazza, pois não estava acostumado a ser marcado de forma limpa, o Rei, descontrolado, desceu do seu pedestal. Em um lance desleal, que não era de seu feitio, Pelé acertou Piazza, que ficou no gramado se contorcendo de dor. Vendo aquilo, o xerifão Procópio foi até o meio-de-campo e acertou uma peitada no Rei, para proteger o colega. Naquele momento, se escrevia mais um lance histórico: Procópio provou que, se eles não podiam vencer aquele time na bola, com certeza não iriam ganhar no grito, afinal, como todo o continente constataria mais tarde, ninguém nunca ganharia do Cruzeiro no grito.


Com Pelé e Procópio expulsos, o Santos esboçou uma reação, marcando dois gols em três minutos, com Toninho, mas isso não preocupou a torcida celeste. O Cruzeiro começou a tocar a bola e, num lançamento em profundidade, Evaldo dividiu com Gilmar e a bola saiu, como se procurasse os pés de alguém para parar.


Como diz o velho ditado do futebol, a bola procura quem a trata bem. Nesse momento, provando a verdade do ditado, ela parou manca nos pés do príncipe Dirceu Lopes, que, com o gol escancarado, só empurrou para as redes, selando o placar do embate! Cruzeiro 6 x 2 Santos.


O Cruzeiro Esporte Clube nascia para o Brasil, e nunca mais pararia de crescer, nem de encantar os apaixonados pelo esporte mais popular do mundo.


Cruzeiro: Raul, Pedro Paulo, Willian, Procópio e Neco, Piazza e Dirceu Lopes, Natal, Eraldo, Tostão e Hilton.

Santos: Pelé, Gilmar, Mauro, Carlos Alberto, Zito, Lima, Mengalvo e Pepe, Zé Carlos, Durval Oberdian e Toninho.

Está em boas mãos!

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