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23 01 08
A Velha Raposa, Ênio Andrade.

Cruzeiro 1 x 0 São Paulo-SP

02/11/95

No ano de 1995, o Cruzeiro disputou um jogo jogo que valeu por dois. Por dificuldades de agendamento, significavam, simultâneamente, pelo título da Copa Ouro e pela classificação para a próxima fase da Supercopa Dos Campeões da Libertadores.

O adversário foi o timaço do São Paulo, que era bicampeão Mundial e da Libertadores, comandado pelo brilhante técnico mineiro Telê Santana, que disputou o título com total favoritismo.

O Cruzeiro era treinado, na época, por uma velha raposa do futebol nacional, Ênio Andrade, que, pelo time celeste, tinha conquistado o título da Supercopa em 91.

O primeiro jogo aconteceu
em Belo Horizonte, e o Cruzeiro jogou desfalcado do ponta Roberto Gaúcho, que tinha sido expulso no confronto anterior contra o Colo-Colo. A batalha dos dois mestres, no Mineirão, foi histórica: o time mineiro entrou muito nervoso e, logo no começo do jogo, Dida falhou e Palhinha marcou 1 a 0 para o São Paulo.

No final do primeiro tempo, o zagueiro Rogério sofreu violenta falta de seu xará são-paulino e revidou; inexplicavelmente, o árbitro pernambucano Wilson de Souza Mendonça expulsou somente o cruzeirense.

O outro zagueiro celeste, Vanderci, tomou as dores do companheiro e deu uma peitada no juiz – foi expulso na mesma hora.

Em seguida, Fabinho e Marcelo reclamaram e também foram expulsos. A polícia precisou entrar em campo para proteger o árbitro da ira cruzeirense.
A torcida, revoltada com a truculência, gritava sem parar:
“Ah... ah... ah... se roubar vai apanhar!”.


Percebendo que jogar o segundo tempo todo com apenas sete jogadores seria um massacre, Ênio Andrade substituiu rapidamente meio time: saíram Alberto, Dinei e Paulinho, e entraram Luis Fernando Flores, Luis Fernando Gomes e Serginho. Na volta do intervalo, Luis Fernando Gomes simulou uma contusão e saiu de maca; como já haviam sido feitas todas as substituições e, pela regra, nenhum time pode jogar com menos de sete atletas, o árbitro não teve outra opção senão determinar o fim da partida.

A torcida cruzeirense vibrou como se o time tivesse feito um gol.
A semana que se seguiu pareceu uma inquisição: a imprensa paulista, a mais parcial do país, passou a semana toda criticando a jogada de Ênio Andrade. Alguns falavam que a manobra não fazia jus à gloriosa história do Cruzeiro; outros alegavam que a jogada foi antidesportiva, apesar de nada constar nas regras do jogo. O jornalista Juca Kfouri, em seu programa Cartão Verde, da Rede Cultura de São Paulo, considerou o jogo como a maior vergonha da história do Cruzeiro Esporte Clube; Djalminha, jogador do Palmeiras, que não tinha nada a ver com a história, declarou que, se o técnico o mandasse cair, ele não cairia. Esqueceram eles de comentar a péssima arbitragem do juiz da partida, que expulsara em um único lance quatro jogadores.

O Cruzeiro foi jogar a final no estádio do Pacaembu sem os seus cinco titulares, e a imprensa paulista esperava uma goleada que colocasse aquele time mineiro no seu devido lugar. Não se lembraram de que aquele time era o Cruzeiro Esporte Clube, acostumado a conquistar títulos em todos os estádios do Brasil e do mundo, e de que não ganhariam o jogo no grito.

Os deuses do futebol já pareciam sinalizar o que iria acontecer, pois o dia do jogo coincidia com o aniversário de 29 anos da brilhante conquista da Taça do Brasil, o primeiro título nacional do Cruzeiro, ali mesmo no Pacaembu. Supersticioso, Ênio Andrade não quis viajar no dia do jogo, porque era Dia de Finados; assim então a delegação partiu um dia antes.

O Cruzeiro teve que jogar muito improvisado, colocando o lateral Nonato na lateral direita para que Serginho jogasse pela esquerda – tudo porque o Cruzeiro estava com o elenco muito reduzido.


A torcida são-paulina veio conferir o massacre e assistir à conquista de mais
um caneco, mas a história não seria bem assim. Os dois times entraram em campo e a expressão na cara dos jogadores celestes era de que aquele não era um simples jogo, era uma batalha.

O São Paulo, como era esperado, começou melhor e atacando muito. Aos 9 minutos, Amarildo recebeu na lateral e cruzou para trás; Denílson bateu na corrida, mas por cima do travessão. Logo depois, Caio teve bela chance, mas, quando estava na cara do gol, foi desarmado por Ademir, que era um leão
em campo. Apenas aos 20 minutos o Cruzeiro começou a equilibrar a partida e a sair do sufoco, com bons ataques de Paulinho e de Dinei. Mas o primeiro tempo acabou com nítida vantagem para o São Paulo, para o qual o empate daria o título.

O segundo tempo começou e o Cruzeiro surpreendeu: aos 14 minutos, Dinei recebeu e tabelou com Roberto Gaúcho. O ponta levantou a cabeça e, de pé direito, cruzou rasteiro na área para o próprio Dinei, que entrou como um azougue, chutando rasteiro no canto de Zetti. O Cruzeiro, para surpresa geral, abria o marcador e silenciava o Pacaembu.

Telê Santana trocou Denílson por Palhinha e foi vaiado pela torcida, que queria a saída de Amarildo. O São Paulo partiu desesperado para o ataque, mas o gol não saía, pois todos os ataques acabavam nas mãos de Dida, e nos contra-ataques, o Cruzeiro levava uma pressão terrível com a velocidade de Roberto Gaúcho e de Dinei.

No final do jogo, Dinei foi à linha de fundo e cruzou para Paulinho marcar um golaço de calcanhar. Seria o gol do título, não fosse o árbitro anular o gol, alegando que a bola tinha saído antes do cruzamento. No replay da televisão, ficou claro que a bola não tinha saído por pelo menos um metro. Agora, nem a imprensa paulista poderia reclamar de o São Paulo ter sido prejudicado.


O jogo acabou e o título seria decidido nas cobranças de penalidades. Na primeira cobrança do Cruzeiro, Nonato ignorou as vaias e bateu com categoria, marcando o primeiro. O veterano Alemão se preparou para cobrar o segundo, enquanto a torcida são-paulina cantava seu hino – “Oh tricolor... Ô... Ô... Ô... clube bem amado...”. O veterano jogador bateu forte, mas Dida voou como um gato no canto certo e defendeu, calando mais uma vez o Pacaembu. Paulinho Maclaren bateu com tranqüilidade e também converteu; o zagueiro Bordon correu e soltou uma bomba, mas a bola estourou na trave e saiu. O Cruzeiro agora tinha a vantagem de duas cobranças e o meio-de-campo Alberto também bateu e converteu. Se o são-paulino André errasse, o jogo acabaria, mas ele bateu bem e marcou, ficando a decisão para o zagueiro Gelson Baresi. O zagueirão correu e bateu forte no canto esquerdo. O goleiro Zetti pulou para o canto errado, a bola entrou e o Cruzeiro novamente era campeão.

Os jogadores corriam e se abraçavam. Depois de 29 anos, o Cruzeiro conquistava mais um título no Pacaembu, relembrando a prepotente imprensa paulista que aquele não era qualquer adversário, aquele era o Cruzeiro, campeão mais uma vez. Ênio Andrade, como de costume, saiu calado de campo, sem perder a classe; havia ganhado o duelo contra Telê, mostrando a todos o porquê de o mascote do Cruzeiro ser a raposa. Mesmo com a vitória, o velho mestre ignorou os medíocres e mesquinhos jornalistas, que esperavam uma resposta mal-educada ao massacre de críticas que tinha sofrido. Mas Ênio era bom demais e estava acima disso tudo – afinal, tinha levado a melhor, com o regulamento debaixo do braço.

Aos cronistas paulistas que tanto falaram durante a semana coube apenas o silêncio dos derrotados. O Cruzeiro, mesmo prejudicado pela arbitragem, foi campeão na raça, enchendo de orgulho todos os torcedores e provando mais uma vez a alegria de ser cruzeirense.

Se a maior vergonha da história do Cruzeiro é ganhar um título continental, imaginem as maiores glórias.


Ficha Técnica
Cruzeiro 1 x 0 São Paulo-SP
Copa Ouro / Supercopa (quartas-de-final) - Pacaembu - São Paulo
Público - 4.680 / Renda - R$ 36.870,00
Árbitro - Félix Benegas (PAR)
Gols: Dinei
aos 13' do 1º tempo
Penâltis: Cruzeiro 4 a 1 (Nonato 1 a 0; Dida defendeu cobrança de Alemão 1 a 0; Paulinho MacLaren 2 a 0; Bordon errou cobrança 2 a 0; Alberto 3 a 0; André Luiz 3 a 1; Gélson 4 a 1)
.

Cruzeiro : Dida; Nonato, Gelson, Ademir e Serginho; Ricardinho, Beletti, Alberto, e Sotelo (Dinei); Paulinho e Roberto Gaúcho (Rodrigo Silva). Técnico: ênio Andrade.

São Paulo (SP) : Zetti; Rogério (Catê), Gilmar, Bordon e André Luiz; Alemão, Toninho Cerezo, Donizete, Denílson (Palhinha); Caio e Amarildo. Técnico: Telê Santana.

Dedicatória.

Muitos treinadores do Cruzeiro incorporaram o espírito e características da "Raposa".
Se existe um treinador que pode representar todos os demais pelo seu envolvimento e astúcias típicas de uma Raposa foi o "Seu Ênio". Uma velha Raposa que sabia ganhar, que convencia, que era criticado e nunca demonstrava irritação.
Este capítulo heróico e imortal é dedicado ao Professor Ênio Andrade, sempre respeitado pelos seus comandados e temido por todos adversários.
Onde estiver, professor, MUITO OBRIGADO!
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