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Uma Derrota Imortal

Cruzeiro 0 x 2 Real Madrid (ESP)

15/08/1976

Um dia o Real Madrid, este mesmo que é conhecido atualmente como celeiro de galáticos, apelou para vencer o Cruzeiro. São assim as nossas derrotas, imortais e muitas delas vergonhosas para os adversários.

Alguns leitores deste blog são meus amigos, torcedores do nosso rival citadino, e passam por aqui para saber o que significa Páginas Imortais e para deixar seus recados malcriados. Um destes recados questiona porque só escrevo Páginas Imortais e Heróicas narrando vitórias. Não é bem assim e o livro Jogos Imortais narra derrotas, mas eles não devem ter lido. Como nem só de vitórias um time constrói suas Páginas Heróicas mostraremos que o Cruzeiro é tão grande que até empates e derrotas merecem ser lembradas e imortalizadas.

Escolhi uma derrota para o Real Madrid, pois é no exemplo desta grande equipe que devemos nos espelhar para objetivos futuros. Eles só começaram a crescer e tornar-se um time do mundo quando abandonaram a rivalidade local e passaram a ignorar o adversário que, por acaso, tem o mesmo nome de nosso adversário rural.

No início da década de 70, estopim da internacionalização do Cruzeiro era, por si só, uma vitória ter começado na condição de time de imigrantes italianos e que crescer muito além de um time de uma cidade, fazer excursões e disputar torneios na Europa. Torneios de verdade, daqueles que resultam em troféus e não coisas que se derretem e nem chegam ao Brasil. O Cruzeiro se tornara um grande vencedor, um patrimônio de Belo Horizonte, de Minas Gerais e do Brasil, sendo das primeiras equipes de futebol a receber reconhecimento da tradicionalíssima mídia esportiva nacional, para inveja de muito time fora do eixo RJ-SP.

Em 1975, o time celeste participou do "Torneio Teresa Herrera" tradicional e famoso torneio de verão na Espanha, na cidade de La Coruña e, mesmo tendo sido vice-campeão, ao perder a final nos pênaltis para o Penarol, apresentou futebol tão superior, que o foi convidado a jogar o torneio novamente no ano seguinte, independente da classificação no Campeonato Brasileiro, ou será que eles estava prevendo que aquele time não poderia fazer feio no brasileiro de 75? Mal sabiam, os dirigentes mineiros, que ao receber o convite que o torneio parecia já ter sido encomendado pelo dono do futebol espanhol naquela época.

Em 1976, de volta ao torneio, dividiria com o local Real Madrid, time do então ditador Franco, o uruguaio Penarol, campeão do ano anterior e o PSV, da Holanda, time que representava o futebol que encantou o mundo na Copa do Mundo de Seleções e 1974, o nosso Cruzeiro Esporte Clube, convidado especial e vice-campeão Brasileiro no ano anterior.

Na sexta feira, início do torneio o Madrid vencera o Peñarol por 5x2 , e no sábado coube ao Cruzeiro, numa belíssima apresentação, brindar os espanhóis com futebol de verdade e eliminar os holandeses por 2 a 0. O melhor estava porvir.

A final seria disputada no domingo e o time celeste não teve nem 24 horas para descansar antes de enfrentar o time madrileño. Para complicar a situação, o experiente Zezé Moreira não poderia contar com dois de seus principais jogadores: Nelinho e Palhinha. Os dois, contundidos na partida contra o PSV, não disputariam a final.

Aquele time era uma máquina de jogar futebol e, liderados pelo "Furacão" Jairzinho e pelo "Bailarino" Joãozinho, fizeram a partida começar com domínio sobre o adversário local. A academia jogava no 4-4-2 quando se defendia, com Jairzinho recuando para o meio. Quando atacava, o "Furacão" mudava de posição e o time partia para um 4-3-3.

O Madrid estava acuado e sua torcida, que lotara o estádio, estava calada, ao time do "Generalissimo" restava apelar para as faltas duras e desleais.

Aos 14 minutos, Jairzinho invade a área, em velocidade, se livrando dos marcadores, o ponteiro solta uma bomba que passa raspando a trave. Aos 20 minutos, em cobrança magistral de falta, Joãozinho obrigou o goleiro Miguel Angel a fazer um milagre.

Foi então que, aos 29 minutos, totalmente dominado, o poderoso Madrid apelou e começou a contar com a ajuda do árbitro para ter o título. Jairzinho fez grande jogada, driblando seus marcadores, e lançou Joãozinho, o "Bailarino" invadiu a área e quando ia finalizar foi empurrado por trás por Braitner, o árbitro apita e os cruzeirenses comemoram a marcação do pênalti mas são surpreendidos quando o mesmo indica que a falta seria cobrada em dois lance dentro da área madrileña. Acabara de ser criada uma regra no futebol que so estaria em vigor somente naquele jogo e para aqueles lances que beneficiassem os cruzeirenses.

No final do primeiro tempo, Joãozinho recebeu mais uma falta violenta que chegou a rasgar sua camisa. O ponteiro levantou e revidou a agressão. O juiz não fez nada, e mesmo depois que vários diretores de ambos os times invadiram o campo e agressões de parte a parte, o árbitro, impassível, encerrou o primeiro tempo.

O segundo tempo começou com o meio de campo madrileno sendo totalmente dominado pela maestria do capitão Wilson Piazza que, com classe e excepcional qualidade de futebol, desarmava todos ataques espanhóis. Já pelo lado contrario a classe não era uma das virtudes daquele time. Joãozinho, era literalmente caçado por todo o campo com a conivência do soprador de latinha. O domínio era total e, aos 15 minutos, Jairzinho chutou forte e quase marcou. Logo depois, aos 20, Joãozinho recebeu outra falta criminosa do zagueiro Benito, que fez com que todos os jogadores celestes partissem para cima do português que conduzia o prélio. Nem falta o árbitro marcou e mandou o jogo recomeçar. Uma vergonha que um time da grandeza do Real Madrid precisasse de ajuda desta natureza para ganhar torneios, afinal foram tantos.

Foi então que, aos 28 minutos, veio o troco celeste, Jairzinho acertou um soco certeiro no zagueiro Benito e, desta vez, foram os jogadores do Madrid que pressionaram o árbitro e este respondeu que não tinha visto nada. Com o zagueiro espanhol sangrando, o auxiliar espanhol denunciou Jair e o árbitro expulsou-o, mostrando que a regra só valia naquela partida para punir o Cruzeiro.

Com dez jogadore, o Cruzeiro seguia mostrando sua raça e acuando ainda mais o Real, Joãozinho e Zé Carlos perderam boas chances. Então, aos 35 minutos da etapa final, veio o castigo que o time celeste não merecia. Santilana recebeu livre na área e quando ia concluir foi derrubado por Moraes e Ozires. Pênalti que Pirri cobrou e marcou, fazendo o time celeste sofrer com o ditado popular de quem não faz o gol acaba levando.

O Real recuou todo o time e apenas Santilana ficou no ataque, aquilo valia um título e um precioso troféu. Joãozinho, aos 40, ainda faria um carnaval sobre a defesa adversária mas, depois de driblar meio time, concluiu para fora.

Não era mesmo nosso dia. Se fosse, o árbitro não deixaria que saíssemos da Espanha com o troféu. Aos 47, Jansen sofre falta de Moraes mais de um metro fora da área, o árbitro marcou a falta. Foi empurrado por jogadores do Real voltou atrás e assinalando outro pênalti. Guerini cobrou mesmo debaixo de uma chuva de protestos do time celeste e converteu para desespero dos heróicos cruzeirenses.

O time sairia batido em campo e com os jogadores entristecidos, afinal o melhor não tinha vencido graças a influência do árbitro. Mas a justiça divina fez com que aquele não fosse nunca lembrado pela torcida como o ano que o cruzeiro foi roubado pelo Real Madrid. Aquele ano estará, para sempre, em nossa história como o ano em que pelo primeira vez o Cruzeiro conquistou a América sendo campeão da Libertadores. Titulo este que desde 1960 muitos times brasileiros tentam mas nem perto chegam, inclusive outro time mineiro que o persegue e raramente este se classificar para disputá-lo.

Ficha Técnica
Cruzeiro 0 x 2 Real Madri (ESP)
XXXI Torneio Teresa Herrera (FINAL) - Riazor - La Coruña
Público - Não Informado/
Renda - Cr$ 2.600.000
Árbitro - Sedor Correio (POR)
Auxiliares - Petronelli (ESP) e Ermida (ESP)
Gols: Pirri (P) aos 35min e Guerini (P) aos 47 do segundo tempo.

Cartão Amarelo: Penido (MAD).
Cartão Vermelho: Jairzinho (CRU).

Cruzeiro : Raul; Isidoro, Moraes, Ozires e Vanderley; Piazza (Valdo), Zé Carlos, Eduardo, Ronaldo (Silva); Jairzinho e Joãozinho. Técnico: Zezé Moreira.

Real Madri (ESP) : Miguel Angel; Sol, Benito (Uris), Pirri e Camacho; Del Bosque, Jansen, Braitner e Santilana; Velásquez e Guerini. Técnico: Miljan Miljanic.


Dedicatória.

Esta Página Imortal é dedicada a um grande ídolo. Meu grande ídolo, Joãozinho! O maior ponta esquerda que já vestiu a camisa cruzeirense. Uma vez, conversando com ele, ele me perguntou por qual razãoeu estava desesperado pelo autógrafo já que eu tinha dito não me apegar a coisas como aquelas. Respondi sem pestanejar: Quantos torcedores no mundo tem o orgulho e oportunidade de apertar a mão de um ídolo que deu um título continental?
Saí com o aperto e mào e um autógrafo de nosso eterno "Bailarino da Toca" e neste dia vi um torcedor de nosso adversário rural pedir um autógrafo e uma foto para a filha dele. Será?
OBRIGADO JOÃOZINHO!!!
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