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07 12 07
Põe na conta do Bispo!

Cruzeiro 3 x 1 Atlético-MG

20/06/65

O Mineirão não havia sido inaugurado, ainda era metade da década de 60 e já era claro o domínio celeste no Estado.


A primeira academia celeste de futebol, liderada pelo príncipe Dirceu Lopes e pelo imortal Tostão, começava o amplo domínio do futebol mineiro e já planejava vôos mais altos.


No ano de 1965, o Torneio Gil César Moreira de Abreu fora organizado para angariar fundos em benefício da construção do prédio do campus da Faculdade Católica no bairro Coração Eucarístico, cujo reitor era o bispo dom Serafim Fernandes, torcedor fanático do nosso rival local.


Claro que, rapidamente, o torneio foi apelidado de "Torneio do Bispo", e houve grande adesão de times com a participação de Cruzeiro, Atlético, Flamengo, Bangu, América e Siderúrgica.


Era o terceiro torneio organizado no semestre pois o certame estadual só teria inicio após a inauguração do Mineirão. Os dois torneios anteriores foram vencidos pelo Cruzeiro , o que contrariava a quase todos e nada mais interessante que uma competição do torcedor-símbolo alvinegro tivesse o time dele como vencedor. A idéia era que, se o Cruzeiro já tinha ganho dois e não ganharia outro.


A expectativa para a final era grande, ambos os times chegaram a final empatados em pontos, os dirigentes do rival acreditavam que este seria o primeiro titulo do ano mesmo ignorando a clara vantagem técnica da equipe celeste. Este clássico também tinha um ingrediente especial já que seria o ultimo clássico disputado no Estádio Independência, o Mineirão estava prestes a abrir para ser o grande palco daquele jogo.


Do lado celeste, existia a dúvida da participação do craque Tostão. na partida anterior, contra o América, ele havia sido substituído e a perspectiva de não ter que enfrentar o craque animou a torcida rival. Para azar deles Tostão jogaria e o resultado seria o mais lógico.


Logo o inicio do jogo já dava para ver que Tostão, Dirceu e Ílton envolveriam a meia cancha como nas partidas anteriores. Aos 8 minutos o cruzeiro já ameaçava a meta rival, Osias fora obrigado a mandar para escanteio um belo chute de Tostão.


A dupla de zaga do rival era formada por Grapete e Bueno e em uma disputa contra craques do nível de um Dirceu Lopes os desajeitados defensores rivais eram submetidos a lances vexatórios em quase todos os ataques. Os armadores cruzeirenses levavam a linha defensiva atleticana ao desespero e o gol não demoraria a sair.


Aos 11 minutos, o craque Dirceu Lopes, no auge da sua juventude, armou a jogada e lançou o ponteiro Dalmar. Este em velocidade levantou a bola e Fescina, aproveitando a bobeira da desajeitada zaga adversária, entrou rapidamente e surpreendentemente, para abrir o marcador do clássico.


A festa era da torcida celeste que começava a acostumar com o espetáculo que o time apresentava. A defesa atleticana continuava a bater cabeça e no final da primeira etapa em cruzamento de Dalmar, mais uma vez Fescina aproveitou a bobeira geral dos defensores e marcou de cabeça o segundo gol celeste.


No intervalo, Wilson Oliveira, técnico atleticano, ainda tentara mexer no time, na esperança de uma reação milagrosa que poderia acontecer.


No inicio da segunda etapa, dava para ver que o jogo estava mais para uma goleada celeste do que para uma reação. Aos 3 minutos da etapa final Dirceu Lopes e Tostão entraram tabelando na área adversária, com o chute de Dirceu explodindo na trave. No rebote Fescina, novamente ele, marcaria para o Cruzeiro. A festa era total e o Estádio Independência era azul e branco.


Na comemoração celeste o time bobeou e deu a chance do rival fazer seu gol de honra, em um chute de Toninho, o lateral Pedro Paulo colocou a mão na bola, pênalti que o próprio Toninho bateu e converteu.


Após o gol, o Cruzeiro fazia rodar a bola para passar o tempo, a torcida então, aos 42 minutos do segundo tempo, começou a gritar "OLÉ" a cada passe trocado pelo meio de campo celeste, o que irritou a muitos presentes, notadamente os adversários. Os descontrolados diretores do rival do lado de fora do campo mandavam seus jogadores utilizarem da violência quando puderem.


Num destes lances, Décio Teixeira atingiu violentamente Wilson Almeida. O árbitro, imediatamente, expulsou Décio Teixeira. Wilson Almeida estava caído no chão, quando o ponta direita Buião, passando ao seu lado, lhe deu um pisão em sua mão provocando a revolta do jogador e do time cruzeirense. Tostão acertou Buião que caiu no gramado e outros jogadores do Cruzeiro o chutaram. O jogador atleticano perdeu os sentidos e teve de ser carregado para o vestiário. A confusão continuou em campo e se generalizou em uma pancadaria histórica, o árbitro sem ter mais o que fazer encerrou a partida alegando que havia expulsado todos os jogadores do gramado.


No vestiário do rival o técnico Wilson Oliveira declarou “desta vez eles não se contentaram em nos vencer na bola e quiseram ganhar também no braço”.


No vestiário celeste a alegria era total, jogadores e dirigentes comemoravam afinal no torneio do bispo atleticano o troféu seria para sempre cruzeirense, e sinalizava o que seriam os anos e conquistas que estavam para acontecer nos anos seguintes.


Ficha Técnica

Cruzeiro 3 x 0 Atlético (MG)
Torneio do Bispo - Estádio Independência - BH *
Público - 7.279 / Renda - Cr$10.693.500,00
Árbitro - Doraci Jerônimo (BH)

Gols: Fecina 11' e 4' do primeiro tempo e aos 4' do segundo tempo. Toninho (Pen) aos 7' do segundo tempo para o Atlético-MG

Cruzeiro: Tonho; Pedro Paulo, William, Vavá e Tião; Ílton, Dirceu Lopes, Wilson Almeida e Tostão; Fescina e Dalmar (Hílton Oliveira). Técnico: Aírton Moreira.

Atlético (MG) : Osias (Paulo Monteiro); Warley (João Batista), Grapete e Bueno; Décio Teixeira, Vanderley (Noêmio) e Buglê; Buião, Paulista, Toninho e Nílson (Roberto Mauro). Técnico: Wilson Oliveira.

* Uma briga envolveu todos os jogadores aos 43 do 2o, que foram expulsos pelo árbitro, que deu o clássico por encerrado. O Cruzeiro sagrou-se Campeão do Torneio e recebeu a "Taça Ducal" e a "Taça Gil César Moreira de Abreu".

Dedicatória.
Este capítulo não pode ser colocado na "conta do Bispo", mas é dedicado em homenagem ao artilheiro Fescina, de história pouco lembrada pela maioria dos torcedores. É um dos poucos a conseguirem o feito de marcar três vêzes numa só partida contra os rivais locais. Somente muitos anos depois é que Revétria, Ronaldo "Fenômeno" e Fábio Jr, repetiriam o feito. Fescina não tem a notoriedade dos demais matadores mas merece aqui neste espaço todo o reconhecimento, gratidão e apreço que os cruzeirenses devem lhe render.

Valeu Fescina!

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