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02 10 07
Adeus Pelé!

Cruzeiro 3 x 1 Santos (SP)

28/07/1974

O Campeonato Nacional de 1974 decidiu-se em um quadrangular final entre Cruzeiro, Internacional-RS, Santos-SP e Vasco-RJ. Cada jogo era uma verdadeira batalha, dentro e fora das quatro linhas.


O Cruzeiro, liderado por seu capitão Wilson Piazza, era a equipe melhor formada, apesar de enfrentar duas máquinas no quadrangular, o Santos do "Rei Pelé" e o jovem time do Internacional, que, anos depois, travaria batalhas imortais contra o próprio Cruzeiro, tanto no Campeonato Brasileiro quanto pela Libertadores da América. O quarto time do quadrangular era o esforçado representante carioca que, apesar de ser muito inferior tecnicamente aos outros três, vinha com esperanças e interesses da mídia em se tornar o primeiro clube carioca campeão nacional.


Naquela época, era publico e notório que para a CBD o interessante era um time carioca ser campeão, o título não poderia ficar de fora do Rio mais uma vez na quarta edição. Os erros de arbitragem naquele quadrangular foram, coincidentemente, todos a favor do time representante do Rio de Janeiro.


Na semana decisiva do campeonato, o Cruzeiro abalado por ter empatado contra o time carioca no Mineirão em 1 a 1, num jogo tumultuado, teria que bater o Santos, no Morumbi, e torcer para que o Inter vencesse o time carioca no Rio de Janeiro. Neste caso, seria campeão pela melhor campanha no quadrangular. Caso o Cruzeiro vencesse o Santos e houvesse empate no Rio, uma partida extra, decisiva, seria marcada para Belo Horizonte, entre a equipe carioca e o Cruzeiro e o local seria a capital mineira pelo fato do Cruzeiro ter a melhor campanha em toda a competição.


A semana tinha sido agitada já que a revolta cruzeirense contra a arbitragem da partida anterior era estampada em todos os jornais. O pernambucano Sebastião Rufino tinha conduzido a partida claramente ajudando o time carioca, chegando a não marcar um pênalti, escandaloso, de Alcir sobre Palhinha. O próprio Alcir ao sair de campo admitira que cometera a infração.


O diretor celeste, Carmine Furletti, e o técnico Ílton Chaves , que chegaram a invadir o gramado, eram os mais revoltados,“De norte a sul do pais cada um tem uma história para contar a respeito desse juiz”, observou Furletti. Já Ílton Chaves desabafou “como o Vasco chegou aqui e arrancou este empate de 1 a 1, ajudado por desonestos, podemos chegar no Pacaembu, jogar o que sabemos, faturar o Santos e no Rio acontecer o que para ninguém será surpresa a queda do Vasco, que já foi longe demais”.

Porém, para chegar ao título, o Cruzeiro teria que mais uma vez bater o Santos fora de casa o que não seria tarefa fácil para nenhum clube no mundo. O jogo ainda tinha um toque imortal já que esta poderia ser a última partida do "Rei" do futebol. Pelé já vinha dando sinais que sua aposentadoria estava próxima e que desejava parar no auge, ganhar o título nacional seria a coroação final da brilhante carreira. O Rei estava abismado com as falcatruas em prol dos cariocas declarou na época “felizmente vamos decidir contra uma equipe de talento e que procura jogar futebol. Será um grande espetáculo”. O Santos também estava na mesma posição cruzeirense. Em caso de vitória e tropeço carioca o título iria mais uma vez para a Vila Belmiro.


O publico lotou o Morumbi esperando que daquele jogo saísse o campeão nacional, afinal um campeonato daquela importância merecia um campeão de fato e não de armação. No Rio, já se esperando outra armação favorecendo os cariocas, atrasaram o começo do jogo em 5 minutos para que a partida terminasse depois de encerrado o confronto do Morumbi e que, com o resultado na mão, pudessem comemorar o título.


O Cruzeiro começara a partida com tudo porém, logo no inicio, aos 6 minutos os alto falantes do Morumbi noticiaram o primeiro gol do Vasco marcado por Roberto. Aquele anúncio gerou desânimo nas duas equipes. Ao Cruzeiro cabia somente esquecer a partida do Rio e fazer a sua parte buscando a vitória a qualquer custo. Aos 15 minutos, Palhinha quase marcou. Mais dois minutos e o príncipe Dirceu Lopes, aproveitando lançamento de Piazza chutou com violência para a defesa de Cejas.


O Cruzeiro jogava como por musica e colocava o Santos na roda. Aos 24 do primeiro tempo, nova chance com Dirceu Lopes que recebeu de Palhinha e aplicou um drible desmoralizante em Vicente, na saída de Cejas tocou rasteiro para o gol, porém, antes da bola entrar, o zagueiro santista se recuperou e salvou um gol certo.


Foi então que, no alto-falante do estádio, a péssima noticia foi dada, o time carioca acabara de marcar o seu segundo gol através de Zanata e a torcida no Rio já soltava o grito de campeão. Aos jogadores celestes parecia que o sonho do título acabara, mesmo assim cabia a eles uma saída honrosa do campeonato e buscando forças, ninguém sabe de onde, o time abriu o marcador. Aos 30 minutos, Dirceu Lopes, no meio de três marcadores, cria um espaço e lança Roberto Batata que passa por Turcão e cruza para Palhinha mandar para o fundo das redes.


Logo na saída de bola santista, aos 31 minutos, o Cruzeiro retoma rapidamente, Nelinho recebe na lateral, avança, passa por três aversários e solta a bomba, um golaço. O chute saiu tão forte que todos achavam que havia sido uma das costumeiras bombas de pé direito do lateral porem o mais incrível foi que o gol foi de canhota.


A academia celeste mostrava sua face avassaladora e dominava todo o campo, aos 37 minutos, o eterno capitão Wilson Piazza cobraria uma falta lançando Zé Carlos. O "Mestre Zelão" tocara de primeira para Dirceu Lopes que, com sua costumeira categoria, limpou o lance e marcou o terceiro gol celeste. Parecia inacreditável, em apenas 7 minutos o Cruzeiro marcara três gols em um dos times mais fortes do mundo. Pelé via a tudo dando bronca em todos jogadores santistas, parecia que o filme da goleada de 1966 iria se repetir.


Para a sorte do Santos o primeiro tempo acabou com a goleada parcial e o Cruzeiro foi para o intervalo desanimado pois todos imaginavam que o titulo já estava perdido. O segundo tempo começou e aos 4 minutos Pelé ganhou de toda defesa cruzeirense e tocou para Nenê, antes que a bola entrasse apareceu Perfumo para salvar.


Logo na seqüência, Wilson Piazza, aproveitando uma falta no meio de campo, jogou a bola para cima fazendo cêra, o árbitro, Armando Marques, veio correndo e lhe aplicou o cartão amarelo. Cartão este que o tiraria da partida extra, caso o resultado do jogo no Rio se alterasse e o Inter virasse a história.


Mas ai, como que em um filme de script inimaginável, a maré de sorte começou a mudar, os alto falantes do estádio do Morumbi anunciaram que o Inter acabara de diminuir com um gol de Lula. O jogo continuou tenso com os minutos se passando e o titulo indo para os lados da Rua da Alfandêga. Aos 32 minutos da etapa final o Santos marcaria seu gol de honra. Nenê recebeu lançamento de Léo e de frente para Perfumo mandou o chute rasteiro. Indefensável!


Esta foi a última vez que o "Rei Pelé" enfrentou o Cruzeiro e, assim como tinha sido na primeira vez, saiu de campo derrotado. Aquela camisa azul certamente não traria as melhores lembranças na brilhante carreira do rei do futebol, sua aposentadoria de campos brasileiros seria atrasada mais algumas partidas.


Não havia tempo para a reação santista e no finalzinho da partida a noticia, vinda mais uma vez pelos sistema de som do estádio, era que o Internacional empatava, desta feita com Escurinho.


A final do campeonato ficaria para um jogo extra no Mineirão. No vestiário, o capitão celeste se lembrou do cartão e emocionou a todos chorando fortemente emocionado. Carmine Furletti se aproximou e declarou que o título seria dedicado ao maior cruzeirense de todos, mas para Piazza nada importava mais, ele estava fora da final e mesmo já sendo consagrado no mundo todo como campeão mundial a tristeza era insuperável.


De volta a Belo Horizonte, na terça-feira, Piazza foi comunicado que não tinha recebido o cartão amarelo e que estava apto a jogar a final, uma surpresa tomou conta de todos, a partida tinha sido transferida de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro devido a invasão de campo do técnico cruzeirense algumas rodadas antes.


Até hoje existem varias versões do porquê a diretoria celeste pouco protestou pela absurda mudança.


A historia do jogo final todos nós sabemos, aquele árbitro pouco afeito a futebol de verdade, nos prejudicou, escandalosamente, usurpando o título do Cruzeiro ao marcar vários lances duvidosos e ao anular um gol legitimo de Zé Carlos.


Depois que anulou o gol, nosso capitão chegou ao árbitro falando um monte de palavrões e ele na maior soberba do mundo virou para Piazza e falou “o senhor não era nem para estar jogando, não tem moral para reclamar“.


A verdade é que o Cruzeiro sofreu uma das maiores injustiças da historia do futebol nacional. Este foi o único título que faltou nos 14 anos de carreira de Wilson Piazza, nosso eterno capitão. Atleta que em toda sua carreira profissional vestiu apenas duas camisas: a do Cruzeiro e a da seleção brasileira. Foi campeão e capitão nas duas. Merece todo o reconhecimento do torcedor celeste.


Ficha Técnica
Cruzeiro 3 x 1 Santos-SP
Campeonato Nacional (finais) - Morumbi - São Paulo
Público - 40.618 / Renda - R$346.677,00
Árbitro - Armando Marques (SP)
Gols: Palhinha 30min; Nelinho 31min e Dirceu Lopes 36min do
1º tempo, Nenê aos 32min do 2º tempo.

Cruzeiro : Vítor; Nelinho, Perfumo, Darci Meneses e Vanderlei; Piazza, Zé Carlos, Roberto Batata (Cândido) e Dirceu Lopes; Palhinha e Eduardo (Joãozinho). Técnico: Ílton Chaves.

Santos (SP) : Cejas; Hermes, Vicente, Marinho e Turcão; Clodoaldo, Brecha (Léo), Fernandinho e Nenê; Pelé e Mazinho. Técnico: Tim.

Dedicatória.

Cada página dos JOGOS IMORTAIS é dedicada a um personagem que tem alguma relação com as mesmas. Nem sempre este personagem é alguém famoso ou conhecido do torcedor cruzeirense. Muitas das vêzes serão cruzeirenses anônimos mas que fazem a história deste time e torcida.

Este capítulo é dedicado a um torcedor anônimo, Afrânio Gonçalves de Oliveira, filho do "Zé Bonitinho", cruzeirense de pai palestrino e com filhos e muitos sobrinhos cruzeirenses por sua influência. Neste jogo, que seria a despedida de Pelé, Seu Afrânio fez a despedida das arquibancadas acompanhando o Cruzeiro. Ele acreditava no título e foi a São Paulo para sair de lá campeão. Não viu o titulo. Alimentou a esperança de ver naquele jogo cercado de muitos mistérios até hoje. Infelizmente, no dia da decisão, sofreu um acidente automobilistico que levou-o a morte e não pôde ver a final no Rio de Janeiro. Hoje, um dos seus filhos, carrega a tarefa de torcer e unir os cruzeirenses em torno do Cruzeiro no site www.Cruzeiro.Org levando nossa bandeira para todo o mundo. É o Evandro Oliveira, do qual tenho orgulho de ser amigo.

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